Conto: Chato

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Autoria: Luisa Soresini

Como ela me chamava? Ah é… Chato. Essa palavra soava estranho para mim, afinal nunca a tinha ouvido antes. Chato. C-H-A-T-O. Eu poderia não saber o que aquilo significava, mas definitivamente não soava nada bem quando ela dizia. Suas sobrancelhas finas se curvavam, suas mãos cerravam-se e ela me encarava com aquele olhar. Aquele olhar de quem ia me caçar para uma boa alimentação.

Eu a encarava de longe. Como que alguém tão… Bufei, irritado com aquela ideia. Consegue me encarar com aquele olhar? Ela era tão… Suspirei, torcendo os lábios, sentindo-me inferior. Por que eu só a entendia quando ela falava das flores? Das árvores? Dos animais? Por que eu não entendia aquelas palavras estranhas dela? Aquelas palavras daqueles malditos seres que se dizem modernos?

Moderno. Outra palavra que eu não conseguia entender. De acordo com o livro deles que achei; moderno é ser superior. Onde está a superioridade de um ser que destrói o mundo que vive? Mordi meus lábios, nervoso com tudo que fizeram para nós, para o nosso povo. Nossa mãe estava morrendo por causa deles. Daqueles malditos. Já tive muita vontade de acabar com eles. Mas nossa mãe dizia que não, que aquilo não nos levaria a nada. Eu a desobedeci e por causa disso acabei a trazendo para nós.

Ela.

Eu a observei novamente, tentando disfarçar o meu orgulho que queimava dentro de mim. Como é que ela tinha nascido naquele mundo? No mundo que eu sonhava em destruir? Como ela podia ser fruto daqueles seres tão desprezíveis? Eu a mirei agora… Conseguia sentir o cheiro dela. Eram pêssegos… Cheiro de pêssegos. Eu me mergulhei nesse aroma. Lembrando-me de cada elemento, cada flor, cada animal que todo o seu corpo me trazia à memória. A maré baixa, o azul das cordilheiras, os olhos de lince, a cor do fogo que queimava em mim. E aquele cheiro maravilhoso de pêssegos frescos. Sim… Eu podia sentir aquele fogo queimar dentro dela. O fogo que me movia, que me alimentava, que me mantinha vivo. Meu poderoso elemento. Sem ele, eu não era nada.

Ela também não podia ser.

– Eu… Acho que peguei pesado com você, Fê. – ela apareceu na minha frente, e aquele fogo subiu para seu rosto – Você não entende o meu mundo, não sabe… Das regras.

Ele queimava tão intensamente.

– Então… Desculpe por te chamar de chato.

Chato. Dessa vez, ao ouvi-la novamente, meus pelos se eriçaram e aquele cheiro de pêssegos tomou minhas narinas completamente. De onde ela tirava aquele cheiro tão intenso? Encostei meu nariz próximo as suas pernas, não era ali. Na sua barriga, também não. Colo, pescoço, também não…

– O que está fazendo, Fê? – ela me parou quando a encarei. Por que estava queimando tão intensamente quanto eu? Ela também tinha esse dom? Engoli a seco e senti o aroma vindo de suas palavras. Sim. Era dai que vinha aquele aroma. Aquele aroma maduro. De frutas maduras. Fechei os olhos. Como será o gosto?

– É bom… – murmurei e senti minha face direita queimar. Não era bom mais. Eu a encarei e ela estava com aquele olhar, mas continuava queimando tanto quanto eu.

– Seu…. SEU CHATO! – ela correu novamente como fez hoje de manhã, quando a vi no lago. Quando gritou essa palavra incoerente. Sorri. Passando a mão no rosto dolorido.

Parecia que chato não era uma palavra tão ruim assim.

***

Oi Gente, esse foi o conto mais recente que eu produzi! Espero que gostem! Não deixem de seguir o blog para mais contos autorais e não esqueçam de curtir a minha fan page no facebook Luisa Soresini para mais novidades sobre meu livro A filha do Norte!

Abraços,

Luisa Soresini

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